Segue mais um relato do coordenador do Centro Cultural da Ação da Cidadania João Guerreiro sobre o Sarau Providencial, realizado para crianças do Morro da Providência. As fotos podem ser vistas aqui.
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Tivemos o último sarau no dia 4 de setembro, mas apenas hoje consigo tentar prestar contas deste sarau.
Primeiro sarau do mês de setembro, um calor fenomenal no Largo da Escadaria. Ao chegarmos de kombi - virei burguês mesmo...- havia algo de novo no ar. Acho que era porque fazia quase 15 dias que não tinha sol no Rio de Janeiro. A quadra na parte de baixo do Morro da Favela estava cheia: churrasco e música.
A escadaria estava tomada pelo esgoto de mais um rompimento de algum cano... O cheiro do lixo na enconta do Largo estava bastante forte - não havia falado, mas ao lado do Largo da Escadaria e da Igreja fica uma ribanceira que dá para o pátio de uma empresa de ônibus perto da Central do Brasil e é o local de desova do lixo caseiro da parte alta do Morro da Providência já que não há coleta de lixo acima da escadaria nem pelos já conhecidos garis comunitários. Esta é a grande questão ambiental dos moradores da Providência. E é lá que fazemos o sarau e o cineclube...
A garatoda estava pegando fogo! Pique-pega, futebol e bicicleta era o cenário. Mauricio Hora, do Favelarte, já estava montando o equipamento do cineclube e do sarau.
Nivea e Gabriella começaram a colocar o plástico e os livros sobre ele. Lindasy veio correndo para o colo da Gabriella. Pronto: menos uma para montar o espaço.
Mas, mesmo assim, desta vez fui tudo montado rapidamente - estamos ficando experientes...
Nivea mostrou uma enorme caixa de presentes que havíamos levado. As crianças estavam todas curiosas. Ela perguntou se alguém sabia o que era madrinha. Todas deram as mais confusas definições, mas deixaram claro que sabiam o que era. Então, ela disse que, após o último relato do Sarau Providencial de agosto, uma escritora muito boa e legal tinha adorado o nosso Sarau. E mais que isso: tinha doado mais de 20 livros para serem entregues a eles. Por isso a caixa de presentes!
Quem era esta escritora, perguntaram? Ela disse: nada mais, nada menos que Ana Maria Machado! Muitas crianças já a conheciam e falaram que já tinham visto livros dela no Sarau.
Sentou, as crianças sentaram em círculo e ela começou a contar a história de Ana Maria Machado. Depois abriu a caixa para mostrar a doação das obras completas da Ana Maria para eles. Mas, porque eles?
Ela tinha gostado muito das histórias sobre o Sarau Providencial e queria contribuir.
Em roda estavam e em roda ficaram. Começou o Sarau mais organizado de todos: os livros de poesia iam passando de mão em mão com todos lendo o mesmo livro. Eu, que estava filmando tudo, imaginei uma roda de griôs do outro lado do Atlântico.
Sarau terminado, hora de entregar os "presentes" da Madrinha Ana Maria Machado. E aí veio mais uma vez o imponderável: alguma criança sugeriu fazerem cartas de agradecimento para a Madrinha. Uma carta coletiva ou individual? Individual!
Corremos atrás de papeis, canetas e lapis. A alegria deles contrasta com a nossa angústia. Se estão num processo lento de aprendizado da leitura junto com os amigos, como seria a escrita? Como imaginávamos:
muito mais difícil que a leitura.
E agora, José? Como sairemos deste desafio? Daí meu silêncio até hoje.
Não sabemos ainda, pois não somos escola, nem nos propusemos a fazer reforço escolar: o que fazer? Nos preparamos para o improvável, não para o provável...
Editamos as cartas feitas por eles como os folclorista faziam com relação aos contos populares? Esta é coisa mais fácil que os detentores da cultura dita erudita faziam com relação à cultura popular. Temos que inovar...
Para terminar leio o bilhete que meu filho do alto dos seus 6 anos escreveu para Ana Maria Machado: Ana Maria você deve ganhar muito dinheiro por causa dos seus livros! Pois é, Pedro além de ainda não conhecer a dura vida dos escritores neste país, já está impregnado pela sociedade de consumo... Duro caminho pela frente, seja na Providência, seja em casa...
Mas é isto que faz o Sarau Providencial uma delícia: desafios sempre, gratificação de vê-los lendo aos poucos e conhecendo este fantástico mundo dentro das histórias.
Ah, neste sábado, termos o Cineclube Morro da Providência em parceria com o Festival de Cinema do Rio de Janeiro.
No Sarau leremos "O Fantástico Mistério de Feirunha" do Pedro Bandeira e, depois, passaremos "Xuxa em o Mistério de Feiurinha" como atividade do Festival no Morro da Favela.
E esta parceria vai possibilitar comprarmos a tão esperada Pipoqueira. Viva!
Beijos, João Guerreiro.

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