Aconteceu sábado passado mais uma edição do Sarau Providencial e do Cineclube Morro da Providência, desta vez com o filme O Circo, de Charles Chaplin. Veja abaixo o depoimento do coordenador da Ação da Cidadania João Guerreiro, um dos organizadores do evento:
Conforme convite enviado, no último sábado (31/07) fizemos mais uma sessão do Cineclube e o Sarau Providencial.
Pela primeira vez este ano, ao invés de subirmos de mototáxi, descemos na Central do Brasil, passamos por dentro da gare (a Gabriella, que é voluntária do Sarau, nunca tinha ido à Central - é mineira, recém chegada ao RJ) e fomos para a Rua Senador Pompeu e, cheios de pompa, pegamos a kombi para o Largo do Morro da Providência.
Nivea e Gabriella protestaram - gostam de subir de moto, cabelos ao vento - mas, com o choque de ordem, é melhor subir de kombi. O trajeto mudou: na Providência agora tem até "mão" de subida e de descida. O choque de ordem me fez passar do transporte irregular individual para o coletivo.
Mas, vamos ao que interessa: chegamos à Providência por volta das 17h30 (atraso causado pela preparação do material do Sarau). Apenas uma criança no Largo da Escadaria e o Maurício Hora sozinho tentando montar os equipamentos.
As moças colocam o plástico no chão do Largo e espalham os livros. Em 5 minutos, começam a sair "levas" de crianças das vielas e em 10 minutos já são 21 crianças agarradas com os livros e com as "tias". Todo mundo quer ler, escolher a poesia a ser lida e o Sarau Providêncial fica improvável. Improvável porque Vinícius, Cecílias e Quintanas passam a ser disputados como doces de Cosme e Damião. Improvável porque a disputa é para ler! E o mais improvável ainda é que a grande maioria destas crianças não sabem ler! Apesar de todas estarem na escola, são analfabetas. Então porque disputar as Silvias \orthoff, as Ruths Rochas? Estamos todos procurando entender o porquê e, até agora, a melhor resposta é a razão do próprio sarau: o despojamento, a "naturalização" da leitura e do livro, a liberdade de interpretação e a atenção que as "tias" dão para essa criança. Ah, e nesta sociedade de espetáculo, poder ler no "nicrofone"!
Todo o programado foi superado pela "pororoca" das crianças afoitas para decorar a sua poesia (a maioria não sabe ler, como já disse).
- Por favor, não pise no Drumond, olha, cuidado com o Bandeira, não bate com o Ziraldo na cabeça do amiguinho...
A cena que não vi e o Maurício Hora não conseguiu registrar com sua câmara: dois bebês com menos de um ano engatinhando entre os livros (mãe, só não deixa eles babarem na Ana Maria Machado, tá?) um deles, senta, pega um livro e abre! Imitando o irmão mais velho inicia-se o hábito da leitura precoce? Parece-nos que sim. Mas, como mantê-lo?
Mais um enigma.
Das 21 crianças, 15 leram poesia. Algumas, várias poesias. Ah, já teve adolescente se chegando devagarzinho...
A menina "M" que no Sarau anterior estava com suas medeixas até a cintura e cheinha de piolho chega com seus cabelos curtos. Ela era a mais bagunceira no primeiro sarau. Desta vez era a mais concentrada.
Sabem o motivo? Então me digam.
Ufa! As "tias" já estão exaustas. Hora da surpresa: levamos livros infantis de casa (doação involuntária do Pedro e do Miguel) e sorteamos entre os que falaram poesia. Eram apenas 6 para 15 crianças. Foi o que deu para fazer.
Pronto! Hora do filme. "O Circo" do Chaplin é um sucesso absoluto. Não só entre as crianças, mas, também, entre os adultos que vão se chegando ao verem o Largo com as luzes apagadas e as crianças deitadas no que, antes, era o plastico de proteção dos livros e lugar de ficar sentado (?) lendo sua poesia.
Acabado o filme, aplausos. E todos perguntando: quem é o cara engraçado, ele tá vivo? Tem outro filme dele? Poesia e cinema: só faltou a pipoca desta vez...
Hora de ir embora. Desmonta tudo e guarda na Casa Amarela. Os policiais da UPP - que não perdem uma exibição do Cineclube inexplicavelmente portando fuzis na favela "pacificada" - antes de se dispersarem, perguntam: qual será o próximo dia? Me poupem, mas faz parte. Fuzil é fuzil, não importa na mão de quem está. Livro com fuzil? É, estamos no Morro da Providência...
Hora de descer. Cadê a kombi? Quem desce do Morro da Favela às 22 horas de kombi? E eu que pensei que ia dar uma de bom burguês e pegar um transporte coletivo irregular.
Até a próxima.

Um comentário:
oi ana maria machado td bem sou sua fã
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