Postagem atualizada
No último sábado, 21 de agosto, aconteceu mais uma edição do Sarau Providencial e do Cineclube Morro da Providência. Segue relato de João Guerreiro, coordenador da Ação da Cidadania, e de seu filho, 12 anos, Miguel Mendes.
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Mais uma prestação de contas do Sarau Providencial. Como sempre é muito improvável, o relato não é curto, assim como as emoções que o sarau nos proporciona. Ao final de um "registro" do Miguel sobre sua participação (realmente não posso ter um twitter...rsrsrs):
Neste último sábado, 21 de agosto, tivemos uma nova edição do Sarau Providencial e Cineclube Morro da Providência.
Como sempre um sarau diferente. Desta vez fomos brindados com a presença de 9 adolescentes e crianças da Zona Sul, Centro e Zona Norte.
Os relatos sobre o Sarau e o Cineclube estão abrindo as portas do Morro da Favela para outro público. Foi uma experiência nova (e por conta desta novidade) ficamos apreensivos: será que a garotada vai ficar tímida com a vinda de um público "de fora"?
Ficamos felizes pelo interesse de todos, mas, no fundo dizíamos: hoje não vai rolar. Será que as crianças vão se sentir traídas, se sentirão como objetos de um safari turístico tão em voga em algumas favelas da cidade? Das nove crianças/adolescentes que foram, uma ou duas, no máximo, já tinha estado em uma favela. Alguns pais também foram e o total eram 16 "alemães" no sarau.
Nós e os nosso pré-conceitos! Desta vez subi depois de Nivea e Gabriella (as nossas "tocadoras de saraus" e voluntárias no projeto).
Fiquei no ponto da kombi para o Morro da Providência, na Central do Brasil, esperando as pessoas - mais uma vez Nivea e Gabriella não subiram de moto-taxi e tiveram o acompanhamento do meu pequeno Pedro na "bronca" de ter que ir de kombi).
Qual a minha surpresa - que bom, o Sarau sempre me surpreende! - ao chegar no Largo da Escadaria? Mais organizado do que nunca! Em 20 minutos com auxílio luxuoso de um técnico em eletrônica, Sr. Nelson, eu e Maurício Hora colocamos o som em ponto de bala. Mas, sempre dá um problema. Desta vez, o forte vento frio que se abateu sobre a Providência, nos fez desistir de utilizar o telão para o filme e resolvemos usar a frente da Igreja como local de projeção.
Mas, o que aconteceu no Sarau? Mais uma vez eles nos surpreenderam. A presença de "novos" participantes em nenhum momento deixou-os tímidos!
E, pela primeira vez, uma "proto-organização" ocorreu. Isto porque, segundo Nivea, o Sarau só virou realidade até aqui pela forma descontraída como começou:
- A oferta dos livros, a liberdade de escolha e, principalmente, a nossa não necessidade de ditarmos "as regras" de como seria o Sarau permitiu que eles se auto-organizassem e pudessem, dentro da diversidade cultural apresentada, escolher o que queriam ler e o que não queriam. Assim é a vida: algumas coisas nos interessam e vamos mais à fundo e outras, deixamos passar. Não dá para dar conta da totalidade.
Lindacy (lembram, era(?) uma das analfabetas funcionais) desta vez leu toda a sua poesia sozinha - a da Bailarina. ela nem fala mais bailairina). O Matheu também leu a poesia dele toda sozinho (outro que
era(?) analfabeto funcional) e ficaram todos felizes pois, após o versinho do Mário Quintana sobre a letra M, eles descobriram que tinham um M desenhado na mão. Gabriella começou o sarau com um rap do Gabriel, o Pensador, para mostrarmos que Rap é poesia.
Desde o primeiro sarau, temos Lindacy, Danilo (o noso principal ajudante apesar de ainda não saber ler - ainda porque prometeu à Gabi, a sua amada, que ele aprenderia a ler!), Taigo e Matheus.
Luzia que não leu no último Sarau, desta vez leu.
Dos nossos "alemãezinhos", Pedro e Miguel (meus filhotes) treinaram bastante antes de subirem a Provi.
Miguel (12 anos) leu Drummond e Pedro (6 anos), "A Zebra" do poeta português Sidônio Metralha. Felipe (10 anos) leu uma poeisa bem gaiata dizendo que ele era um gato e Lucas (15 anos) leu uma poesia para sua 'amiga'. Tatá (3 anos) não leu, mas se sentiu bem a vontade - como diria o inesquecível Jamelão: tava igual à pinto no lixo.
No total foram 16 crianças e jovens lendo poesia na noite fria do Morro da Favela.
Ao final, cada uma dela recebeu um livro infantil/juvenil de presente - doação de uma aluna do curso de Letras da UFRJ que não foi desta vez, mas prometeu ir participar daqui para frente.
Depois todos se sentaram ao chão para ver "Tempos Modernos" do Chaplin. Quando começou ouvimos: ih, é aquele cara engraçado que passou no outro sábado (passamos "O circo", lembram-se?). Muito chique a garatada da Provi já reconhecer Charles Chaplin... Será que isso se chama Formação de Plateia?
Ah, uma notícia boa: desta vez não tivemos fuzis desfilando pelo Largo da Escadaria durante o Sarau, nem durante o Cineclube. Que bom!
E após desarmarmos os equipamentos, pegamos a kombi e descemos a fria noite da Provi aquecidos pela felicidade de todos os participantes de mais um Sarau Providencial e Cineclube Morro da Providência.
DOE LIVRO INFANTIL !!!!
No dia seguinte, ainda impactado pela experiência vivida pela primeira vez no sábado (1º Sarau e pela segunda vez em uma favela) Miguel escreveu o seguinte texto:
"Rio de Janeiro, 22 de agosto de 2010.
Meu sábado
Miguel Nobrega Mendes
O meu sábado foi bem diferente! Subi na primeira favela do Rio de Janeiro, que foi construída pelos soldados da Guerra de Canudos. Esta favela possui 167 degraus. E é chamada de Morro da Providência.
Junto com meu pai, que é coordenador da Ação da Cidadania, subimos e fomos ao evento “Sarau de Poesia”, que é para incentivar as crianças a lerem. Teve um filme do Charles Chaplin e todas a crianças que leram um poema no microfone ganharam um livro.
Eu li “O lutador” do Carlos Drummond de Andrade e ganhei “Luluzinha Teen”. Dei para uma amiga já que não gostei muito.
Vi três mirantes que possuem a vista de todo Centro da cidade, a Ponte Rio-Niteroi e a Baia de Guanabara. Também vi três policiais militares descendo o morro com uma arma chamada HK-47.
Eu achei uma ótima experiência participar de um evento que, apesar de não contar com muitas pessoas de fora, ajuda muitas pessoas de dentro que no futuro terão um emprego com dignidade e conseguirão tudo que é preciso para sustentar suas famílias."
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