segunda-feira, agosto 23

Ana Maria Estanislau Celestino

Por Norton Tavares



Com muita eloqüência e um vocabulário extenso, exceção entre as pessoas da comunidade da Barreira, Belford Roxo, Ana Maria Estanislau me contou sua vida com uma voz tranqüila. Perguntei sobre a origem de seu nome, Estanislau, incomum para uma negra filha de um pai nascido pouco depois da Lei do Ventre Livre. Ela não soube responder, mas contou que sempre teve esta curiosidade. Segundo pesquisei, significa Glória da Nação e possui origem eslava, etnia presente na Europa Oriental e Ocidental, como os Búlgaros e os Poloneses. Como era comum os senhores darem seus sobrenomes aos escravos, talvez seja essa a origem.

Durante a infância, acreditava que Papai Noel não gostava dela e de seus irmãos, já que apenas seus amiguinhos eram presenteados no Natal. Só conseguiu realizar seu sonho em ter uma boneca aos 62 anos de idade, depois de receber uma doação de brinquedos para distribuí-los para crianças de sua comunidade. As duas bonecas são alguns dos poucos pertences que sobraram depois das enchentes.

Morou na cidade de Campos de Goytacazes até os vinte anos, onde trabalhava na roça de cana, até vir para o Grande Rio em busca de melhores oportunidades. Sempre viu na educação uma forma de transformação e por isso sofreu preconceito dentro da própria família.

Assim que chegou, foi em busca de trabalho batendo de porta em porta, oferecendo serviços domésticos em troca de apenas duas coisas: alimentação e tempo livre durante a noite para continuar estudando. Só conseguiu meses depois, quando foi indicada para trabalhar em uma casa na Tijuca. Depois de vencido o primeiro obstáculo, faltava conseguir se matricular.

Mais uma vez saiu andando em busca de ajuda, desta vez pelas escolas perto de casa, em São João de Meriti, contando sua história e seu sonho em se tornar professora. Tudo que tinha para oferecer era dedicação e força de vontade. Conseguiu uma bolsa na Escola Normal Barros Borges, já no meio do período letivo.

Como trabalhava na Tijuca, só conseguia chegar no terceiro tempo de aula, mas isso não a impedia de conseguir boas notas. Quando foi chamada pelos professores, que queriam saber o motivo dos atrasos, ela chorou. Achava que perderia naquele momento a bolsa, ficando impedida em continuar estudando. Mas sua história e sua perseverança mais uma vez a salvou. O professor de literatura Wagner, a quem ela é grata até hoje, se solidarizou e pagou todo o resto do curso. Ana Maria Estanislau Cesletino se formou professora.

Aos 23 anos começou a lecionar, trabalhando no Projeto João da Silva, do Ministério da Educação, e em outras iniciativas de erradicação do analfabetismo. Também começou a lecionar para crianças em casa.

Seu primeiro surto aconteceu depois que uma tragédia levou sua filha. Quis morar na rua e parou algumas vezes em hospitais psiquiátricos. Foram sete anos tortuosos e superados, que só requerem um pequeno acompanhamento médico.

Ana não sabe dizer quantas pessoas já alfabetizou em sua vida (200? 500?), mas abre um imenso sorriso ao lembrar dos rostos de gratidão de seus alunos. Lembra com um brilho no olhar dos pais e mães que conseguiram emprego depois de sua ajuda. Conhece cada família que encaminhou para o Bolsa Família, e sabe que é um direito delas receber o benefício.

Sua diabete está tirando aos poucos sua visão. Como não consegue mais ler, fica folheando livros deitada em sua cama, apenas para sentir seu cheiro e sua textura. Uma das coisas que mais sente falta é da leitura. Está há quase um ano na fila para conseguir uma consulta no Hospital da Lagoa, na esperança de conseguir voltar a ter o prazer da leitura. Também sente falta de fazer seus bordados.

Impressiona o carinho dos moradores do bairro com ela. Impossível não se encantar com sua presença. Ana conhece a história de cada um e acompanhou e crescimento de muitos deles.

Com a temporada de chuvas, sua pequena casa alagou. A simples construção foi erguida em um brejo aterrado, o que sempre causou transtornos. Ana já estava com problemas respiratórios por causa da umidade do quarto, local propício para o surgimento de mofo. Depois do alagamento e da queda de algumas paredes, ela está morando em um quartinho emprestado por um vizinho.

Já conseguiu, entre amigos, doações de tijolos e alguns parcos materiais de construção e sua fé inabalável não lhe deixa dúvidas que o resto vai surgir.

Você pode ajudar a Dona Ana? 2233-7460, falar com Norton.

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